domingo, 16 de novembro de 2008


O que me tranqüilizaé que tudo o que existe,existe com uma precisão absoluta.O que for do tamanho de uma cabeça de alfinetenão transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete.Tudo o que existe é de uma grande exatidão.Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível.O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.Nós terminamos adivinhando, confusos,a perfeição.(Clarice Lispector)

Retenho-me, como se retivesse as rédeas de um cavalo que pudesse galopar e me levar Deus sabe onde.
Eu me guardo.
Por que e para quê?
Para o que estou eu me poupando?
Eu já tive clara consciência disso quando uma vez escrevi: "é preciso não ter medo de criar". Por que o medo? Medo de conhecer os limites de minha capacidade? Ou medo do aprendiz de feiticeiro que não sabia como parar?
Quem sabe, assim como uma mulher que se guarda intocada para dar-se um dia ao amor, talvez eu queira morrer toda inteira para que Deus me tenha toda.
(Clarice Lispector)


O imprevisto improvisado e fatal me fascina.
Já entrei contigo em comunicação tão forte que deixei de existir sendo.
Você tornou-se um eu.
É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas.
É tão silencioso.
Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar: olhei para você fixamente por uns instantes.
Tais momentos são o meu segredo.
Houve o que se chama de comunhão perfeita.
Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.
(Clarice Lispector)


Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser.Se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele.Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não é mais.Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar.A ausência inútil da terceira as vezes me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.Fiquei desorganizada porque perdi o que não precisava? A minha nova covardia é a minha maior aventura e essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la.É como acordar de manhã na casa de um estrangeiro. não sei se simplesmente saberei ir.É difícil perder-se.Por isso procurei depressa um modo de me achar sem que eu seja uma mentira viva.Estarei mais livre.Não. Sei que ainda não estou me sentindo livremente. Assustei-me porque não sabia onde ia dar essa estrada, nem para o quê.Ontem perdi durante horas e horas a minha montagem humana.Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida.(Clarice Lispector)

Se eu me demorar muito olhando "para você" (como a tela de Paul Klee) nunca mais poderei voltar atrás.Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante.Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade.O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho.A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos.Então reconheço que a liberdade é para bem poucos.De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem, inteiramente possível, me amedronta, porque sei que minha coragem é possível.A possibilidade, que é verdadeiramente realizada, não é para ser entendida.E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo."Você" não pede.Pelo menos calculo o que seria liberdade.E é isso que o torna intolerável a segurança das grades; o conforto dessa prisão me bate na cara.Tudo o que eu tenho agüentado,só para não ser livre...(Clarice Lispector)

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade" refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.
(Clarice Lispector)

OLHE AO REDOR.....


Olhe para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós.Não temos amado, acima de todas as coisas.Não temos aceito o que não entendemos porque não queremos passar por tolos.Temos amontoado coisas, coisas e coisas, mas não temos um ao outro.Não temos nenhuma alegria que já não esteja catalogada.Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda.Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios.Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível.Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa.Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.Temos chamado de fraqueza a nossa candura.Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.(CLARICE LISPECTOR)

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum:é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio.E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço.Além do que: que faço dessa lucidez?Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias.Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto,eu consisto,amém.(Clarice Lispector)


"Não sei qual é a minha culpa, mas peço perdão.
- A luz do farol revelou-os tão rapidamente que não se puderam ver.
Peço perdão por não ser uma "estrela" ou o "mar",ou por não ser alegre, mas coisa que se dá.Peço perdão por não saber me dar nem a mim mesma.Para me dar desse modo eu perderia a minha vida se fosse preciso- mas peço de novo perdão,...Não sei perder minha vida."

Clarice Lispector

"Cada vez que não podia cada vez que era proibido cada vez que me negavam eu sorria e pensava que era um manso sorriso de resignação.Mas era a dor que se mascarava em bondade.Eu sabia que era dor errada diante de Deus e pior,diante de mim,quem quer que eu seja."Clarice Lispector

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