segunda-feira, 14 de maio de 2018




DEIXO AO CEGO E AO SURDO

Deixo ao cego e ao surdo

A alma com fronteiras,

Que eu quero sentir tudo

De todas as maneiras.


Do alto de ter consciência

Contemplo a terra e o céu,

Olho-os com inocência...

Nada que vejo é meu.


Mas vejo tão atento

Tão neles me disperso

Que cada pensamento

Me torna já diverso.


E como são estilhaços

Do ser, as coisas dispersas

Quebro a alma em pedaços

E em pessoas diversas.


E se a própria alma vejo

Com outro olhar,

Pergunto se há ensejo

De por isto a julgar.


Ah, tanto como a terra

E o mar e o vasto céu.

Quem se crê próprio erra,

Sou vário e não sou meu.


Se as coisas são estilhaços

Do saber do universo,

Seja eu os meus pedaços,

Impreciso e diverso.


Se quanto sinto é alheio

E de mim se sente,

Como é que a alma veio

A acabar-se em ente?


Assim eu me acomodo

Com o que Deus criou,

Deixo teu diverso modo

Diversos modos sou.


Assim a Deus imito,

Que quando fez o que é

Tirou-lhe o infinito

E a unidade até.


© FERNANDO PESSOA 
24-8-1930 
In Poesias Inéditas (1919-1930), 1956 
Ed. Ática, Lisboa (imp. 1990)

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