domingo, 16 de novembro de 2008


Se eu me demorar muito olhando "para você" (como a tela de Paul Klee) nunca mais poderei voltar atrás.Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante.Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade.O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho.A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos.Então reconheço que a liberdade é para bem poucos.De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem, inteiramente possível, me amedronta, porque sei que minha coragem é possível.A possibilidade, que é verdadeiramente realizada, não é para ser entendida.E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo."Você" não pede.Pelo menos calculo o que seria liberdade.E é isso que o torna intolerável a segurança das grades; o conforto dessa prisão me bate na cara.Tudo o que eu tenho agüentado,só para não ser livre...(Clarice Lispector)

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